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No dia 14 de abril, foi realizado na USP o seminário “Agenda para o pensamento social latino-americano”, que teve a organização do PROLAM (Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina) e contou com as participações dos professores Theotonio dos Santos e Carlos Eduardo Martins, ambos da UFRJ.

Seguem abaixo breves resumos das suas exposições, acompanhadas pela doutorando Ana Carolina Ramos e Silva, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas América Latina e Política Comparada.

Com a apresentação intitulada “A América Latina e os desafios da globalização”, Teothonio dos Santos alertou para a falta de estudos sistemáticos sobre a América Latina e a predominância do conteúdo eurocêntrico nas interpretações da nossa realidade social, o que coloca em pauta a necessidade de pensar a América Latina como uma região que possui um conjunto de tarefas econômicas, políticas, culturais e regionais que lhe conferem expressão própria. A primeira vez que isso ocorreu foi com as lutas de independência contra os impérios colonizadores, que contestavam o pan-americanismo atrelado a EUA e Canadá e a visão anglo-saxônica como referência fundamental. O conteúdo anti-colonial das lutas independentistas teve sua realidade própria, isto é, sem uma identificação com a América do Norte. Tais lutas impulsionaram a criação de um pensamento político muito forte e criativo. Atualmente, há uma tendência de volta a esse movimento. Como exemplo, destaca-se a criação da Cátedra Los Libertadores, na Argentina, associada a um pensamento crítico. Isso se dá em um contexto de recuperação de um campo comum que articula pensadores em torno da temática da construção de uma agenda latino-americana, com identidade regional, a partir de um movimento histórico complexo. Por exemplo, foi descoberta no Peru a civilização Caral, que habitou a região há 5.000 anos. Tal descoberta indica que o pensamento social latino-americano terá que lidar com a questão de que não somos tão recentes como pensamos. Sabe-se que essa civilização criou pirâmides mais altas que as egípcias, que tinha noções de matemática e fazia previsões astronômicas. Nesse quadro, a recuperação da perspectiva regional torna-se mais complexa, pois se trata de entender que somos parte do processo de formação da humanidade e que o eurocentrismo e o pensamento europeu não são universais, ou seja, a América Latina faz parte da civilização planetária. É preciso resgatar essa perspectiva com uma ampliação teórica e a criação de conceitos e metodologias novas para apreender nossa realidade. A construção de uma agenda latino-americana não deve ter um alcance só regional, mas universal. É importante lembrar que a integração da América Latina no sistema mundial proporcionou a riqueza e a acumulação primitiva europeias. No entanto, o subdesenvolvimento e a dependência são fenômenos que não foram analisados como partes integrantes da dinâmica capitalista mundial. Por isso, Theotonio dos Santos conclui que a Teoria da Dependência foi o questionamento mais forte do sistema mundial. Hoje, é necessário resgatar tal teoria com uma visão que questione o movimento imperialista mundial.

Carlos Eduardo Martins, com a exposição intitulada “Agenda para o pensamento social latino-americano”, ressaltou a importância do tema diante da atual projeção da América Latina e defendeu que o pensamento social latino-americano só pode ser construido em perspectiva crítica. A CEPAL, por exemplo, foi um pensamento social que questionou nossa inserção no sistema mundial e afirmou a necessidade de os países latino-americanos se industrializarem. Por outro lado, para a Teoria da Dependência não bastava que os países se industrializassem. A preocupação era como se industrializariam. Nesse sentido, a Teoria da Dependência se afirmou como crítica ao pensamento cepalino que defendia a ilusão do desenvolvimento, ou seja, os países poderiam se industrializar, mas continuariam periféricos. Ao se esgotar o modelo de substituição de importações, houve duas consequências: 1) o potencial da teoria da dependência foi derrotado política e academicamente; 2) a Fundação Ford se esforçou para financiar na América Latina outra forma de pensar, relacionada ao neoliberalismo e à submissão ao Consenso de Washington. Prova disso é que o primeiro GT da ANPOCS sobre pensamento social latino-americano só ocorreu depois de passadas 35 edições. No entanto, a década de 2000 é exemplo de uma retomada do pensamento crítico latino-americano com a queda de Menem na Argentina, de Fujimori no Peru e Pedro Carmona na Venezuela, entre outros. Carlos Eduardo Martins conclui, então, que a agenda d pensamento social latino-americano é a da sua retomada, em detrimento do pensamento europeu e a partir das nossas particularidades, como forma de interpretar nossa realidade.