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José Martí não é só uma figura relevante nas artes, na história política e no pensamento latino-americanos. Trata-se de um líder revolucionário, poeta, ensaísta e teórico cujo significado se comunica com toda a humanidade e o permite equiparar-se às principais referências do pensamento ocidental. Martí anteviu o imperialismo, posteriormente diagnosticado por Lênin. Em polêmicas com um líder independentista cubano, sustentou, chegando a se isolar politicamente por certo tempo, a primazia da liderança política sobre a militar, de modo a se evitar o fenômeno do caudilhismo. O que disse Martí, então minoritário ou até isolado, hoje se poderia dizer a um Hugo Chávez: “Um povo não se funda, general, pelos métodos com que se manda em um acampamento”. A iminência do capitalismo monopolista também fora antevista por Martí. A defesa de que há uma só humanidade, para além de raças e discriminações congêneres, bem como de que o conflito social entre trabalhadores e proprietários tenderia a definir as lutas dos tempos vindouros, pautou, com caráter quase profético, os escritos do pensador. Martí sabia que, assim como a independência de Cuba perante a Espanha, era  tarefa fundamental conter a expansão imperialista estadunidense. Nesse sentido, influenciou a primeira fase dos revolucionários cubanos, para quem a ruptura com o domínio dos EUA intermediado pelo ditador Fulgencio Batista não poderia significar uma nova subjugação, desta vez pela burocracia soviética. Abaixo, se oferece um resumo breve da vida e da obra de um pensador tão relevante e, paradoxalmente, tão esquecido:

. Martí exerceu considerável influência sobre a revolução cubana e, igualmente, sobre os documentos políticos e normativos conformadores do Estado advindo desse processo de ruptura política.

. Seu pensamento se define por patente e impressionante extemporaneidade, o que se evidencia no fato de permanecer atual um século após sua morte.

. Martí nasceu em 1853, quando coexistiam pensamentos críticos à condição da colônia cubana, como o de Delmonte que, em Madri, preconizava que os problemas de Cuba não seriam sanados por meio de uma separação da Espanha, mas mediante reformas que atribuíssem autonomia à ilha e integração mais equânime com o colonizador europeu; e o de Félix Varela, um presbítero que, na Flórida, defendia a independência da ilha. A tese independentista, aliás, teve como adepto pioneiro Antonio Aponte, um artesão negro executado em 1812. Em suma, integravam o ambiente de crítica à Espanha, à época em que nasceu Martí, as seguintes teses: a) independência (Varela); b) reformas, sem independência (Delmonte); e c) anexação aos EUA (sustentada pelo venezuelano Narciso López).

. Filho de espanhóis humildes que migraram para Cuba, umas das últimas colônias da Espanha, Martí teve como principal influência Rafael Maria Mendive, um professor, poeta e diretor de escola, cujo papel em relação à formação do pensador se definiu como o de um preceptor. Um dado impressionante sobre o talento intelectual precoce de Martí é o fato de que, aos 13 anos, já havia traduzido Byron e começado a fazer o mesmo com Hamlet.

. Ainda aos 15 anos, ele aderiu à chamada “Revolução de Yara”, um movimento independentista em 1868. Martí escreveu poemas e ajudou a editar revistas independentistas. À época, Mendive teve seu colégio fechado e foi preso e deportado.

. Martí também foi preso em 1870 por ter redigido uma carta em apoio à independência de Cuba e seguiu para a Espanha no ano seguinte.

. Entre 1871 e 1874, ele estudou Direito, Filosofia e Letras na Espanha. De lá, seguiu para França, México e EUA. Em 1878, durante uma trégua da guerra dos dez anos, Martí tentou voltar definitivamente a Cuba, mas foi deportado para a Espanha em 1879.

. O pensador, então, se fixou em Nova York a partir de 1881. Lá, teve contato com outros independentistas e se revelou peculiarmente radical e ansioso em relação aos seus pares, manifestando, assim, um desejo de pronta retomada dos combates.

. Em 1884, Martí rompeu com generais insurgentes, em especial Gómez, ao sustentar que a liderança política deveria prevalecer O pensador anteviu nos rumos militaristas da luta pela independência cubana um risco de surgimento do caudilhismo que observava em outras repúblicas latino-americanas.

. Em decorrência das suas divergências com a linha militarista preponderante entre os insurgentes cubanos, Martí se submeteu, por tempo considerável, ao isolamento, assim entendido como distanciamento em relação a tarefas concretas do movimento insurrecional. Nesse período, ele se prestou a escrever em demasia, sobretudo em jornais.

. Martí se tornou o escritor mais lido e admirado em Cuba e foi considerado um autor de estilo explosivo estilo, somente comparável ao de Vitor Hugo.

. Ainda em 1889, o pensador anteviu os desígnios colonialistas dos EUA e temia que, ao atuarem como mediadores de um possível conflito entre Cuba e Espanha, poderiam se valer dessa posição para impor seu próprio domínio sobre a ilha.

. Martí ocupou inúmeras posições consulares e chegou a ser representante do Uruguai na primeira conferência monetária internacional, convocada pelos EUA com o objetivo de se instituir uma união monetária entre os países da América.

. O pensador abandonou todas as suas posições profissionais em 1891 e se engajou integralmente na luta pela independência de Cuba. Ele redigiu as “Bases do Partido Revolucionário Cubano” em 1892, o qual é proclamado em abril daquele ano. Posteriormente, reconciliou-se com o general Gómez e concentrou seus esforços na obtenção de fundos e adesões para a guerra de independência.

. Em um momento em que se acreditava na inevitabilidade da independência cubana, os insurgentes perderam armas importantes na Flórida durante o ano de 1895, o que ocorreu por causa de uma traição interna e da sabotagem praticada pelos EUA. Para este país, uma rápida vitória da independência cubana obstaria os planos de mediação do conflito com a Espanha, seguida de influência imperial sobre a ilha.

. Um importante documento independentista foi lançado por Gómez e Martí em 1895, o “Manifesto de Montecristi”.

. As divergências entre militares e civis no comando da luta por independência não tardaram a ressurgir. Nesse caso, porém, o general Gómez ficou ao lado do pensador.

. Aos olhos ocidentais, Martí seria inclassificável, já que sua trajetória não se subsume aos cortes e classificações funcionais e temáticos tão caros à modernidade ocidental. Ele, com efeito, não é um egresso do capitalismo industrial e sua correspondente divisão funcional. Assim, se pode entender como se dedicou, concomitantemente, a múltiplas práticas, como a poesia, a luta armada, a teoria e a literatura infantil, entre outras.

. Seu pensamento expressa, reiteradamente, uma reação ao eurocentrismo e à clivagem entre civilização e barbárie. Martí, em claro diálogo com Sarmiento, afirma que “não há conflito entre civilização e barbárie e, sim, entre a falsa erudição e a natureza”.

. Pouco antes de morrer, o pensador enfatizou em cartas a dupla tarefa a que se propusera: a emancipação de Cuba da Espanha, mas, igualmente, a obstrução de um avanço imperialista dos EUA sobre a ilha. Para Martí, Cuba deveria ser uma trincheira a impedir que a influência imperialista dos EUA seguisse caminho pela América Latina.

. O pensador morreu em combate, atacado por forças espanholas em 1895.

Por Francisco Mata Machado Tavares