Em 20 de setembro de 2012 a esquerda latino-americana perdeu um de seus principais intelectuais: Carlos Nelson Coutinho. Sua obra, influenciada principalmente por Antonio Gramsci e György Lukács, esteve intimamente ligada aos temas da democracia e do socialismo. Uma das marcas de sua produção política e intelectual foi a diversidade. Coutinho foi tradutor e escreveu ensaios sobre marxismo, filosofia, política e crítica literária. Além disso, buscou conciliar sua produção teórica com atuação partidária e militou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido dos Trabalhadores (PT) e Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Nas décadas de 1960 e 1970 produziu importantes análises no campo da crítica literária, como o livro Literatura e Humanismo (1967) e o ensaio O significado de Lima Barreto em nossa literatura (1972). Nesse período já atuava como militante do PCB, no qual ingressara no ano de 1960. Estes estudos vinculavam-se à preocupação de Carlos Nelson Coutinho em estabelecer as bases de uma política cultural nacional-popular a ser desenvolvida pela esquerda brasileira. No final dos anos 1970, durante o exílio na Itália, conheceu em seu auge o Partido Comunista Italiano (PCI) e ficou profundamente marcado por esta experiência. A partir deste momento passou a utilizar-se amplamente dos escritos políticos de Gramsci em sua obra. O marco dessa nova fase do autor foi a publicação do polêmico ensaio A democracia como valor universal (1979), no qual se faz presente o diálogo com intelectuais ligados ao PCI e com a obra de Gramsci. Também importante foi a publicação do livro Gramsci – um estudo sobre seu pensamento político (1981), uma das obras mais influentes nos estudos gramscianos no Brasil. Estas obras eram o fundamento teórico de uma estratégia, para o curto prazo, de derrota da ditadura militar no Brasil e, para longo prazo, de transição ao socialismo, que tinha na democracia o seu cerne.

Publicadas num momento de transição política no Brasil, a ideia central dessas obras era a de que tanto para a derrota da ditadura militar quanto para uma futura transição ao socialismo, a democracia constituía um elemento estratégico. Esta concepção influenciou e marcou o debate político e teórico não apenas no interior do PCB, mas no conjunto da esquerda brasileira. Para Carlos Nelson Coutinho, o socialismo somente se realizaria por meio da democracia e vice-versa. A defesa do nexo indissociável entre socialismo e democracia norteou a sua participação não apenas no PCB, mas posteriormente no PT na década de 1990 e no PSOL, ao qual estava filiado no momento de sua morte. Esse foi o ponto de unidade na diversidade dos temas que abordou e em sua militância por partidos de esquerda.

Carlos Nelson Coutinho também traduziu mais de 60 obras na área de ciências humanas e participou de importantes projetos como a tradução da coleção História do Marxismo organizada por Eric Hobsbawn e publicada no Brasil pela editora Paz e Terra na década de 1980 e mais recentemente a obra de Gramsci publicada pela editora Civilização Brasileira, a qual inclui os Cadernos do Cárcere, Escritos Políticos e Cartas do Cárcere. 

A América Latina não foi um tema central na obra de Carlos Nelson Coutinho, mas nela está presente um esforço comum à esquerda marxista e socialista no continente: o de traduzir o legado do marxismo para as condições próprias à realidade latino-americana para a realização do socialismo.

 Por Ricardo Rodrigues e Ana Carolina Ramos